Cemitério São Francisco de Paula, Pelotas-rs: uma análise da relação entre sua infra-estrutura e os impactos na saúde da população do entorno




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Дата23.09.2012
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Cemitério São Francisco de Paula, Pelotas-RS: uma análise da relação entre sua infra-estrutura e os impactos na saúde da população do entorno


Sória, M.*1; Ramirez, O.P.1


Departamento de Engenharia Agrícola – Faculdade de Engenharia Agrícolal/UFPel

Campus Universitário – Caixa Postal, 354 – 96.010-900 – Pelotas, RS

*marta.soria@pelotas.com.br - opr@zaz.com.br


1. Introdução


Depois de morto, o corpo humano se transforma, constituindo um ecossistema de populações formado, sobretudo, por artrópodes, bactérias, microorganismos patogênicos e destruidores de matéria orgânica. Existem os impactos físicos sobre o ambiente, cujo mais significativo é o da contaminação das águas superficiais e subterrâneas por microorganismos que se proliferam ao se decomporem os corpos.

Os reflexos ambientais iniciais fazem-se notar mais fortemente pelo cheiro na área, provocado pela emanação dos gases funerários e inadequada confecção das sepulturas por inumação, com insuficiente profundidade de enterramento e imprópria cobertura de terra quanto à altura e tipo de solo. Nos jazigos e gavetas, também se podem sentir os odores e se observar infiltração de necrochorume quando nessas construções existem fendas.

A composição média do corpo de um adulto de 70kg costuma ter 16.000g de carbono, 1.800g de nitrogênio, 1.100g de cálcio, 500g de fósforo, 140g de enxofre, 140g de potássio, 100g de sódio, 95g de cloreto [9]. Após a morte, o corpo humano sofre destruição dos tecidos por ação das bactérias e enzimas, resultando na dissolução gradual em gases, líquidos e sais. Os gases produzidos são H2S, CH4, CO2, NH3 [6].

A decomposição do corpo pode durar alguns meses até vários anos, dependendo da ação ambiental. Em clima tropical, o cadáver demora aproximadamente três anos para ser decomposto, ao passo que, em temperado, a decomposição pode durar dez anos [6].

A contaminação pode atingir o aqüífero através do necrochorume: líquido liberado intermitentemente pelos cadáveres em putrefação, o qual também pode conter microorganismos patogênicos. Trata-se de uma solução aquosa rica em sais minerais e substâncias orgânicas degradáveis, de cor castanho-acinzentada, viscosa, polimerizável, de cheiro forte e com grau variado de patogenicidade. Silva [7] afirma que o necrochorume é constituído por 60% de água, 30% de sais minerais e 10% de substâncias orgânicas. Segundo Matos [4], a decomposição dessas substâncias orgânicas pode produzir diaminas, como a cadaverina (C5H14N2) e a putrescina (C4H12N2), possíveis de serem degradadas gerando amônio (NH4+). De acordo com Wilhelm et al. [8], o amônio pode ser gerado, em condições anaeróbias, pela hidrólise das moléculas orgânicas, ou seja:


Proteínas + H2O Aminoácidos (carboxila + amina)

Aminoácidos (carboxila + amina) NH4+ Compostos orgânicos


Para Madigan et al. [3], um grupo de clstrídios obtém sua energia através da fermentação de aminoácidos. Os produtos da fermentação podem ser: ácido isobutírico, sulfeto de hidrogênio, metilmercaptan, cadaverina e putrescina. Não se conhece muito sobre a composição do necrochorume em relação à carga microbiológica. Devido a sua composição química, é provável que se encontrem números elevados de bactérias heterotróficas, de bactérias proteolíticas e de bactérias lipolíticas. Existe a hipótese de se encontrarem bactérias que são normalmente excretadas por humanos (e animais), como Escherichia coli, Enterobacter, Klebsiella e Clostridium perfringes e Clostridium welchii, entre outras. É provável a presença de bactérias patogênicas, como Salmonella typhi, e vírus humanos, como enterovírus [5].

Com o intuito de evidenciar a interação dos cemitérios com o meio ambiente, este estudo procurou tecer uma análise da relação entre a infra-estrutura e os impactos referentes à saúde da população residente no entorno do Cemitério São Francisco de Paula (CSFP), Pelotas-RS. Focalizaram-se alguns de seus aspectos relativos à situação legal irregular, à implantação das sepulturas do cemitério horizontal e à ocupação de populares instalados junto ao muro dos fundos da área. A comunidade, exposta às valetas utilizadas para lançamento de esgoto sanitário, em plena via pública, acaba por se submeter também ao contato com as águas provenientes do escoamento superficial do pátio interno do Cemitério. As constantes irregularidades legais, a inexistência de uma infra-estrutura adequada ao Cemitério e à região do entorno, bem como a falta de informações nos órgãos públicos visitados, suscitaram a urgência de uma pesquisa sobre o tema mencionado e a necessidade de posterior aprofundamento.

O trabalho contempla os seguintes objetivos: identificar os problemas fundamentais referentes à infra-estrutura da região enfocada; verificar o cumprimento da Legislação Ambiental; analisar a qualidade da água das valetas internas e externas à área; apontar a possível ocorrência de doenças de veiculação hídrica na população do entorno; decodificar, registrar, interpretar e discutir os resultados obtidos junto à população-alvo e apresentar conclusões, sugestões e traçar perspectivas quanto ao assunto abordado.


2. MATERIAL E MÈTODOS


As investigações foram desenvolvidas no interior do Cemitério e na região do entorno. A metodologia aplicada foi dividida em etapas de laboratório e campo. No laboratório, procedeu-se a análises físico-químicas e bacteriológicas da água proveniente do escoamento superficial encontrada no interior do Cemitério e na região do entorno. Em campo, realizaram-se entrevistas com a população do entorno, pesquisa junto ao Posto de Saúde e à Secretaria Municipal de Saúde a fim de se coletarem dados referentes à ocorrência de doenças de veiculação hídrica. Ainda fez-se um levantamento fotográfico da área em estudo para se obter uma melhor caracterização do local.

O Cemitério São Francisco de Paula (CSFP) está localizado no bairro Fragata, na cidade de Pelotas, nas zonas COV (Corredor do Comércio Varejista) e ZRMI (Zona Residencial Mista), possuindo uma área de 15,4 há numa região dinâmica e de intensa urbanização. O entorno do cemitério é, em grande parte, constituído por residências modestas, pequenas casas de comércio, como floriculturas, lanchonetes, mecânicas, panificadoras e lojas de material de construção, Posto de Saúde Municipal e escolas.


É usual a falta de cuidados higiênicos e sanitários na operação do Cemitério São Francisco de Paula. Pessoas utilizam as águas empoçadas em covas abertas para regar plantas, coveiros executam exumações sem proteção adequada, encontram-se dispersos restos de caixão e vestes funerárias, ossos estão dispostos ao ar livre, junto aos restos de varrição, capina e poda das árvores do Cemitério.

O presente trabalho se valeu duma série de entrevistas, feitas por meio de questionários à comunidade residente na região do entorno do Cemitério São Francisco de Paula, em março de 2004. A escolha do local deveu-se ao acúmulo de água proveniente do escoamento superficial do pátio interno do Cemitério. A formulação dos questionários, bem como sua aplicação, fundamentaram-se em Barros [2]. A fim de ampliar o entendimento e estender a coleta de dados referentes à pesquisa, visitou-se o Posto de Saúde FRAGET, que funciona durante os três turnos, prestando atendimento médico-odontológico à comunidade. Especialistas do setor da Saúde e/ou funcionários foram entrevistados, e informações foram coletadas dos registros do posto. Situação idêntica ocorreu na Secretaria Municipal de Saúde e na Farmácia Municipal de Pelotas.

As análises físico-químicas e microbiológicas do material líquido (água suja) foram feitas pelo Departamento de Tratamento-Divisão de Laboratório e Pesquisa do Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas - RS, entre outubro de 2003 e fevereiro de 2004, seguindo-se o Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater [1].


3. RESULTADOS E DISCUSSÃO


3.1. Aplicação de questionários


Ao ser questionada sobre a incidência de doenças de veiculação hídrica nos últimos cinco anos, a população alvo manifestou a ocorrência de doenças,tais como hepatite A, ascaridíase, leptospirose, infecções na pele, infecções nos olhos, diarréia e disenteria.


3.2. Pesquisa junto aos estabelecimentos de saúde ligados à região


Nesta etapa do trabalho, foram detectadas várias limitações em razão da ausência, nos registros, de notificações individuais, tais como freqüência por agravo e ano da notificação. Isso poderia ser feito utilizando-se o CID 10 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde); porém, esse método não se mostrou eficaz uma vez que os profissionais da área não notificaram sequer ou claramente os dados referentes às doenças. A insuficiência de informações fez-se notar não só na consulta à Secretaria Municipal de Saúde, como também ao posto municipal de saúde da região enfocada, em cujas fichas de atendimento o problema repetiu-se. Na Farmácia Municipal de Saúde, os resultados obtidos, da mesma forma, não permitiram identificar quais eram as doenças de veiculação hídrica de maior incidência na população estudada.


3.3. Coleta e análise da água


As análises das águas coletadas confirmaram a presença de material patogênico em todos os pontos da amostra, durante todos os meses amostrados.

5. CONCLUSÕES


Constatou-se que, de acordo com a Resolução 335, de 3 de abril de 2003, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), o Cemitério São Francisco de Paula não cumpre com os requisitos exigidos pela legislação ambiental.

A água do cemitério apresenta contaminação de grupos termotolerantes.

Quanto aos questionários aplicados em relação ao item “saúde”, observou-se que estes não traduziam a real situação da população-alvo, em função da qualidade das informações.

Como decorrência dos problemas mencionados, sugere-se que o Cemitério não lance as águas do escoamento superficial para as ruas do entorno sem uma completa estabilização.

Sugere-se que as águas subterrâneas sejam monitoradas por profissional qualificado.


6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


[1]. AMERICAN PUBLIC HEALTH ASSOCIATION. Standard methods for the examination of water & wastewater. 19th. Maryland: Baltimore, 1995.

[2]. BARROS, F. Epidemiologia da saúde infantil: um manual para diagnósticos comunitários. São Paulo: HUCITEC, 199

[3]. MADIGAN, M.T.; MARTINKO, J.M.; PARKER, J. Brock biology of microorganisms. 8th ed., New Jersey: Prentice Hall, 1997, 986p.

[4]. MATOS, B..A. Avaliação da ocorrência e do transporte de microorganismos no aqüífero freático do Cemitério de Vila Nova Cachoeirinha, município de São Paulo. Tese de Doutorado, USP, São Paulo, 2001.

[5]. OTTMAN, F. Créer ou aménager un cimetière. Paris: Moniteur, 1987, 161p.

[6]. POUNDER, D.J. Postmortem changes and time of death. Disponível em: http://www.dundee.ac.uk.forensicmedicine/llb/timedeath.htm. Acesso em 3 jan. 2004.

[7]. SILVA, L.M. Cemitérios: fonte potencial de contaminação dos aqüíferos livres. In: CONGRESSO LATINO-AMERICANO DE HIDROLOGIA SUBTERRÂNEA, 4, Montevidéo. Memórias. Montevidéo: ALHSUD, v. 2, 1998, p. 667-681.

[8]. WILHELM, S.R.; SCHIFF, S.L.; CHERRY, J.A. Biogeochemical evolution of domestic waste water in septic systems: 1. Conceptual model. Ground Water, v. 32, n. 6, 1994, p. 905-916.

[9]. WORLD HEALTH ORGANIZATION - WHO. The impact of cemeteries on the environment and public health. An introductory briefing. Copenhagen, Denmark: WHO Regional Office for Europe, 1998, 11p. (Rept. EUR/ICP/EHNA 01 04 01 (A)).

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